TRIBO FORTE #154 – CHEIRAR HAMBÚRGUER E CAFÉ ANTES DE EXERCÍCIOS

Bem vindo(a) hoje a mais um episódio do podcast oficial da Tribo Forte!

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Neste podcast:

  • Cheirar hambúrguer;
  • Tomar café antes de se exercitar…

Escute e passe adiante!!🙂

Saúde é importante!

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🙂

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Caso de Sucesso do Dia

Pablo

 

 

Referências

Matéria na ZH Sobre Cheirar Hambúrguer

Matéria no G1 Sobre Café Antes de Exercícios

Estudo Sobre Cafeína

 

Transcrição do Episódio

Rodrigo Polesso: Olá, pessoal! Bem-vindo a mais um episódio da Tribo Forte, número 154. Eu sou o Rodrigo Polesso e hoje a gente vai falar sobre cheirar hambúrguer. É isso aí! Você não escutou errado não! A gente vai falar sobre cheirar hambúrguer. Bom, você sabe. Essa é sua dose semanal de estilo de vida saudável, boa ciência nutricional, tudo o que pode te ajudar a viver da melhor forma física, na melhor saúde, com positividade e construindo um melhor estilo de vida saudável para você. Esse é o papel da Tribo Forte e é por isso que a gente está aqui semana a semana há já mais de 150 podcasts, pessoal. É isso. A gente vai falar hoje sobre cheirar hambúrguer, falar sobre tomar café antes do exercício… Se você toma café antes de se exercitar, alerta! É perigoso. A gente vai ver mais sobre isso aqui. Dr. Souto, tudo bem? Está pronto para essa nossa diversão de hoje?

Dr. Souto: Tudo. Cada vez eu espero mais por esse momento que a gente se diverte muito.

Rodrigo Polesso: Se diverte muito, é verdade. Vamos lá. O primeiro então aqui, pessoal. Começando de cara, já. Saiu no jornal Zero Hora do Rio Grande do Sul. O Jornal Zero Hora é um dos maiores, se não o maior, do Rio Grande do Sul. Então, saiu a seguinte manchete: “Cheirar hambúrguer por 2 minutos pode ajudar a resistir a junk food, diz estudo.” Daí eles falam embaixo, na manchete: “Empresas já estão fazendo aromatizadores com cheiro de alimentos prejudiciais à saúde.” Que história é essa, pessoal? O tal estudo foi publicado no Jornal de Pesquisa de Marketing… Aí você já imagina que não é uma coisa… Pelo menos esse não foi na área de nutrição. Mas foi publicado, um estudo sério que ecoou no Jornal Zero Hora. Enfim, as pessoas estão lendo. Milhões de pessoas estão em contato com essa informação. O principal autor do estudo, o gênio, o professor Dipayan Biswas… Eu não sei da onde que é… Ele explica o seguinte. Olha que palavras lindas e comoventes. Ele fala, “O perfume ambiente pode ser uma ferramenta poderosa para resistir aos desejos por alimentos indulgentes. De fato, estímulos sensoriais sutis como aromas podem ser mais eficazes em influenciar as escolhas alimentares de crianças e adultos do que políticas restritivas.” Continua-se o artigo. “Os cientistas expuseram os participantes do estudo ao aroma de morangos ou maçãs e de biscoitos ou pizza. Aqueles que cheiraram por menos de 30 segundos ficaram mais propensos a comer os alimentos gordurosos. No entanto, se o comportamento de cheirar durasse mais de dois minutos, os participantes escolhiam as frutas para consumo.” É difícil ler para vocês sem dar risada, pessoal. “‘Várias empresas estão vendendo diferentes tipos de sprays com aroma de biscoito, por exemplo’ — afirma o pesquisador. Ele acredita que purificadores de ar com aroma de hambúrguer ou doces estimulariam escolhas alimentares mais saudáveis dentro de casa.” Eu não estou conseguindo me conter com tanta asneira num lugar só. Fala aí, Dr. Souto.

Dr. Souto: E se a gente cheirar pum por dois minutos, o que que a gente faz depois?

Rodrigo Polesso: Aí perde o apetite, é melhor ainda.

Dr. Souto: Dá vontade de fazer o quê? Uma das grandes sacadas do Gary Taubes… Quem não leu ainda, pegue na livraria mais próxima o livro “Por Que Engordamos?” do Gary Taubes. Uma das grandes sacadas dele é entender que… Por causa de toda uma escola norte-americana da primeira metade do século XX, surgiu a ideia de que o problema das pessoas que engordam é porque elas não conseguem resistir às tentações. É bem o que esse fulano fala aí… Esse fulano do cheiro do hambúrguer… Ele diz assim… Olha, tem que arranjar um jeito da pessoa aguentar essa indulgências, essas delícias, esses hambúrgueres e tal, porque caso contrário essa pessoa vai engordar. O que que está por trás disso? É a ideia de que a culpa da coisa é a culpa do gordo, né? Ele é glutão e ele é preguiçoso. Ele é glutão, ele não consegue controlar… Enquanto que a pessoa que é magra é porque ela tem disciplina, é porque ela se controla. Ela olha o hambúrguer e não come. Já o cara que engorda… Bom, esse olha o hambúrguer e não se controla e come dois. Além do que é preguiçoso, né? Porque o outro faz exercício. Só que nada disso é verdade, né? Na realidade, quando a gente avalia, o sujeito que é naturalmente magro, geneticamente magro, ele come… Come hambúrguer também, só que ele come o hamburguer não engorda, enquanto que a outra pessoa tem um metabolismo, um organismo diferente, uma sensibilidade à insulina diferente, um problema da leptina diferente, enfim… As pessoas respondem de formas diferentes. Quando eu fiz low carb a primeira vez, falando aí oito anos atrás… Foi quando eu entrei em contato com isso e fiz meu teste… Eu ficava incrédulo ao ver o efeito, observar em mim mesmo a perda de peso sem passar fome e não precisava cheirar nada, Rodrigo. Pelo contrário, eu cheirava e comia as coisas que faziam parte daquele tipo de alimentação. Então, eu estava comendo churrasco. Eu estava comendo a minha carne moída, meu strogonoff, eu comia peixe. Eu comia aquele queijo derretido que vinha na churrascaria. Eram coisas que eu queria cheirar para aumentar meu apetite e comer aquilo ali. Então, essa visão de que eu preciso arranjar meios de cheirar alguma coisa para ter menos vontade… Sabe, assim… Isso é uma coisa que… O que está por trás disso é a visão, na minha opinião, completamente errada àquela de que… Lembra que uma vez nós falamos aqui num podcast… Debochamos muito também de um novo dispositivo para emagrecer que é um troço que o sujeito enfia no nariz para não sentir o gosto? Era um troço de borracha, de silicone, que enfiava nas duas narinas e aquilo bloqueia os receptores de odor do nariz… Como a maior parte do nosso apetite… Desculpa, do nosso paladar tem o input olfativo… E é só a gente lembrar, qualquer um de nós quando esteve gripado a última vez… A gente gripado não sente o gosto das coisas. Então, a solução da obesidade segundo aquele estudo lá era um dispositivo que fazia você não sentir o gosto da comida. Esse aí é para ficar cheirando um troço para diminuir a chance de comer uma comida gostosa, porque na realidade o problema é a comida gostosa. Pô, eu comia um monte de comida gostosa e estava emagrecendo loucamente quando fiz low carb a primeira vez. O problema não é a comida ser gostosa ou não. O problema é a comida ser nutricionalmente péssima. É a gente ter densidade nutricional baixa, comer um negócio que só eleva a insulina, favorece o armazenamento de gordura, não favorece a queima de gordura, sendo gostoso ou não. Eu posso comer arroz sem nada, sem sal, sem nada… Aquele troço que tem gosto de coisa nenhuma e isso vai me engordar mesmo sem ser gostoso. Ou eu posso comer um delicioso entrecot feito na grelha e aquilo vai estar favorecendo meu esforço de comer um alimento nutricionalmente denso e perder peso. E eu posso cheirar e comer o quanto eu quiser aquilo ali. Então, é a minha primeira reação quando eu li isso aí… Pelo amor de Deus.

Rodrigo Polesso: É maluquice. Mas o principal, acho que uma coisa por baixo disso, é justamente essa questão da comida. As pessoas aceitam que hoje em dia comida saudável tem que ser ruim. Não pode ser palatável. Tem que ser sofrida. Pessoal, isso é retardado. A natureza programou nosso cérebro para quando a gente ver alguma coisa nutritiva, a gente gosta daquela coisa. Por isso que a gente vê bacon, a gente quer comer bacon. Por isso que se a gente ver um bife suculento, a gente quer comer, gosta de churrasco…. Porque a gente está programado evolutivamente para gostar dessas coisas. Não fruta, folha, peito de frango sem gordura, brócolis no vapor, esse tipo de coisa. A gente tem que se forçar a comer isso. Não precisa se enganar. A gente pode cheirar e comer o alimento.

Dr. Souto: E apreciar. E outra… Ele faz aquela coisa que me irrita muito. Lá pelas tantas ele diz assim… Pizza… Alimentos gordurosos como pizza. Só um pouquinho, quando penso em pizza, eu penso em carboidratos refinados como pizza. Porque quando eu penso em alimentos gordurosos, eu penso em costelinha. E costelinha ajuda a perder peso. E é uma delícia. Então, assim… É muito comum isso aí… A gente muitas vezes fala mal aqui dos estudos observacionais baseados em questionários de frequência alimentar. Se nós formos ver… Esse estudo está publicado… A maior parte da gordura saturada que os americanos consomem vem de alimentos como pizza, sorvete, biscoito, doces. Aí, a gordura saturada é dita ruim por quê? Porque as pessoas que comem mais gordura saturada são as que comem mais essas coisas que eu acabei de falar. E aí se diz que a gordura saturada faz mal porque ela está associada com maus desfechos… Desfechos que foram provocados por milk-shake e pizza. Mas aí a gente diz que é o nutriente, a gordura saturada que faz mal. E aí vai mandar parar de comer carne. A carne está levando a culpa daquilo que foi provocado pelo sorvete e pela pizza. Então, o sorvete e a pizza, eles não são gordura saturada. Eles não são açúcar. Eles são um conjunto que tem todas essas coisas, assim como a carne não é só gordura saturada. A carne é proteína de alto valor biológico, é vitamina B12. A carne é zinco. Então, a carne é um conjunto de coisas. Então, esse nutricionismo, essa mania de pegar e subdividir o alimento e todos os seus componentes, botar no computador… Aí ver o consumo total de cada nutriente, fazer associações matemáticas com desfechos, depois dizer que aquele nutriente que é ruim… Por que a gente não vai no supermercado e diz assim, “Me dá, faz favor, 100 gramas de gordura saturada e mais uma pitada de zinco?” Não é assim! A gente come alimentos inteiros (deveria comer alimentos inteiros), exceto quando eles são construídos em laboratórios mais ou menos dessa forma. Quando a gente pega, por exemplo, esses “nutridrinks” da vida… Essas coisas que se dá como suplementos. Aquilo sim… É tantos ml de óleo de canola mais tantos miligramas de ferro, mais tantos gramas de proteína isolada de soja. Essas são coisas construídas de acordo com o nutricionismo que forma esse tipo de Frankenstein. Agora, comida… Comida é um conjunto que vem pronto. É um ser vivo. Está aí uma boa regra. Tem que ser uma coisa morta. Em alguns casos pode ser até viva. Eu me lembro de um amigo coreano que eu tinha que comia os tentáculos da lula se mexendo.

Rodrigo Polesso: Come mesmo.

Dr. Souto: Mas comida é assim. É um bicho morto ou uma planta morta. Meio morta, pelo menos. Então, se é um troço que veio de uma fábrica, se foi constituído através de elementos purificados assim… Tantos gramas disso, tantos gramas daquilo… Vamos fazer um composto aqui assim… Aí já não deveria se chamar de comida. Devia ter outro nome para isso.

Rodrigo Polesso: Mas resumindo, acho que fica a dica. Se você for no mercado fazer as compras da semana, dá uma passadinha do McDonald’s, fica dois minutos lá dentro e depois vai para o mercado.

Dr. Souto: Só que é dois minutos, porque se cheirar por 30 segundos vai dar vontade de comer McDonald’s.

Rodrigo Polesso: Tem que ficar dois minutos no cronômetro, isso mesmo.

Dr. Souto: Depois de dois minutos, aí vai firme.

Rodrigo Polesso: Isso aí, pessoal. Você gosta de café? Você se exercita e gosta de café? Então, você vai ver agora que você pode estar com problemas e nem sabe. Mas antes disso o caso de sucesso de hoje. Quem mandou a foto de antes e depois para a gente foi o Pablo. Ele falou: “Estou bastante satisfeito, me sentindo leve, desinchado e atento. Melhorei meus desempenhos nas atividades físicas e as pessoas já estão comentando minhas mudanças físicas.” Ele perdeu em um mês, 30 dias somente, 6,2 quilos e perdeu também 7 centímetros de cintura. Mandou a foto do antes e depois dele. Comendo bem, não foi cheirando hambúrguer não. Foi cheirando carne, comendo carne, cheirando alimento de verdade, alimentação forte e degustando, se lambendo os beiços com isso. Isso é estilo de vida saudável. Ele seguiu o Código Emagrecer de Vez. Se você quer seguir o programa: CodigoEmagrecerDeVez.com.br. Faça parte lá e depois mande para a gente também o seu testemunho, os seus resultados. Ok.  Saiu no G1, no Globo.com, “Café antes de exercícios físicos pode causar danos à saúde, diz pesquisa da Unesp de Marília. Batimentos cardíacos de pessoas que ingeriram cafeína antes das atividades físicas demoram meia hora a mais pra voltar ao normal e isso aumenta o risco de infarto.” Ok. Legal. Fui ver o artigo, pessoal… Abri o artigo… Está publicado… Fui lá e vou ler para vocês o que que é isso aí… Se tomar café antes do exercício físico, você vai aumentar seu risco de infarto. Tudo bem. Vamos ver que estudo é esse. O estudo consistiu em analisar o comportamento cardiovascular de 32 homens com idade entre 18 e 25 anos que consumiam cafeína antes de realizar atividade física… Que consumiram, no caso, para testar. Eles tomaram alternativamente uma cápsula de cafeína ou uma cápsula de farinha de trigo, um placebo, para ver o que que dava de resultado. Após os testes, os pesquisadores constataram que os batimentos cardíacos dos que haviam tomado cafeína demorou uma hora para voltar ao normal, ou seja, o dobro do tempo necessário de quando não estavam com a substância no corpo. Bom, vamos lá. Eu comecei a ler isso e falei, caramba, quanta coisa. Primeiro problema… Se assumir que uma pílula de cafeína é igual tomar café é burrice. Não é a mesma coisa. Depois, não é segredo para ninguém que cafeína é um estimulante. Então, nada mais óbvio do que ela aumentar os batimentos cardíacos e o metabolismo também. Coisa óbvia. Segundo, essa pergunta é importante: qual foi a dose? Lendo o artigo… Tem que ir na ler o artigo, não é a manchete do jornal não que está ali… Lendo o artigo a gente vê que a dose foi de 300 miligramas de cafeína… Pessoal, isso equivale a tomar 750 ml de café, ou 15 xícaras de café. Mas o pior, esses 300 miligramas foram ingeridos instantaneamente no formato de uma cápsula, uma pílula. Convenhamos que num cenário real as pessoas levariam um bom tempo para tomar 15 xícaras de café. O terceiro problema é que as diferenças dos dois grupos nas variáveis testadas foram na verdade, basicamente, insignificantes. Basicamente não houve diferença alguma nas variáveis e dá até vergonha de você ler as conclusões do estudo. Fiquei com uma vergonha alheia ali. Então, mais uma vez a gente vê manchete espalhando bobagem sem fundamento e tudo em rede nacional. Então, olha só. Se você… Eu até fiquei surpreso que as pessoas não tiveram um grande de batimento cardíaco….

Dr. Souto: Rodrigo, alguém infartou nesse estudo?

Rodrigo Polesso: Ninguém infartou! O jornal decidiu colocar “enfarte” no título porque chama a atenção.

Dr. Souto: É isso que é ridículo, né?

Rodrigo Polesso: Ninguém infartou e ninguém teve problema nenhum, nenhum alerta vermelho, nenhum alerta vermelho. E na boa, quem que toma 15 xícaras de café antes de se exercitar?

Dr. Souto: Posso mudar a manchete? Eu vou mudar. Estudo mostra que café é tão seguro, mas tão seguro, que mesmo que você tome uma quantidade insólita de café, os efeitos são quase nulos. Eu faria essa manchete.

Rodrigo Polesso: Instantaneamente… Tem que ser tipo shot.

Dr. Souto: Outra manchete. Você não conseguiria tomar uma quantidade suficiente de café antes do exercício para alterar de forma preocupante seus parâmetros cardiovasculares.

Rodrigo Polesso: Exatamente. Essa é a manchete, pessoal. Mas o que saiu foi o seguinte, de novo. “Café antes de exercícios físicos pode causar danos à saúde, diz pesquisa da Unesp de Marília.” Você vai duvidar? Não vai, porque é uma pesquisa da Unesp de Marília.

Dr. Souto: Eu inclusive faria o seguinte. Como eu gosto de café, eu evitaria o exercício.

Rodrigo Polesso: Pior ainda!

Dr. Souto: Deve ser melhor para o coração.

Rodrigo Polesso: Meu Jesus! E outra, não é café pessoal. Fala café, mas foi cafeína. Que coisa absurda! Dr. Souto, é mais um exemplo de… Mas o problema é o seguinte… A gente fica P da vida porque as pessoas vão ler o G1 e elas vão ler a notícia… Quem que vai atrás? Eles nem colocam a referência, que é um mau costume do caramba. Quem que vai atrás para ler o estudo publicado em inglês e conseguir abrir o estudo inteiro para depois achar essas babaquices? Ninguém faz! As pessoas param de ler na manchete e já param de tomar café ou param de fazer exercício.

Dr. Souto: Mas tinha uma pessoa que tinha que fazer isso… Que é o jornalista que escreveu o raio da manchete.

Rodrigo Polesso: Mas você acha que ele tem competência científica para analisar essas coisas? A maioria eu acho que não, né?

Dr. Souto: Assim… Rodrigo… Digamos que você seja formado em jornalismo. Vão te chamar para escrever sobre jornalismo esportivo se o seu negócio é jornalismo político? Não! Então, dentro do jornal existem editoriais, não é verdade? Tem um pessoal que cobre política, tem um pessoal que cobre polícia, tem um pessoal que sobre esporte. O cara do esporte é aquele cara que gosta, aquele cara que lembra da escalação do time de 5 anos atrás. Aquele sujeito que lembra o resultado do jogo do time A com o time B na segunda rodada não sei das quantas. O cara que gosta, o cara que curte isso. Ele entende, ele estuda, ele gosta daquilo. Agora, na hora de ler sobre jornalismo científico, aí só pode estar pegando o cara que está em treinamento lá, o interno. Tipo assim… Quem é que vai escrever sobre esse negócio aqui? Pega o estagiário. Bota o estagiário para escrever. O correto… Poxa vida… Nada contra esportes, mas eu considero que, em sendo jornal uma mídia de informação, seria mais importante que eles tivessem uma editoria científica competente. Contrata um jornalista que tem formação científica.

Rodrigo Polesso: Deveria ser assim.

Dr. Souto: Deveria ser assim. Nós falamos no Gary Taubes mais cedo. Gary Taubes é um cara que antes de fazer jornalismo, fez física. Então, ele entende o processo, o método científico, a metodologia científica. O cara é um cientista e um jornalista. Bom, então ele é um jornalista da área de ciência. É isso, né? Quando a gente vê lá um… Pega um programa jornalístico bom, tipo um Roda Vida daqueles. Tem jornalista ali que são uns caras com boa formação jurídica, filosófica e tal. Aqueles jornalistas ali talvez não fossem os melhores para cobrir, por exemplo, o campeonato brasileiro. A competência deles não é essa. Mas a competência do cara que cobre ciência tem que ser uma competência científica. Eu estou ao mesmo tempo concordando contigo, Rodrigo, e dizendo, sim, o jornalista típico que vai colocar isso aí na revista, no jornal, não tem condição, nem lê inglês para poder pegar o artigo original. Mas ele não devia estar fazendo isso. Ele devia estar cobrindo esporte, devia estar cobrindo polícia… Pauta geral… Aquela assim dos buracos da rua… Porque o cara que vai falar de ciência ele tem que saber ler um artigo científico. Ele tem que saber o que é o PubMed. Ele tem que saber o que é o Sci-Hub para achar os artigos.

Rodrigo Polesso: É verdade. Eu concordo plenamente com você. Isso daí para mim é incompetência pura. Você escreve sobre esse tipo de assunto… Pelo amor de Deus. Seu nome está no artigo. Você está enganando pessoas. E outra coisa que eu me sinto assim… Deve ser bastante ruim para o pessoal que fez esse estudo na Unesp, por exemplo… Receberam fundos, foram lá, entupiram a galera, tentaram intoxicar a galera com cafeína e falou… No final a galera tomou cafeína para caramba… Não deu diferença nenhuma… O que que a gente via falar? Daí colocaram um release, será… Não sei colocaram release… E daí o cara do G1 foi lá e olhou… Caramba… Esse estudo… O pessoal tomou café para caramba e não deu em nada… O que que a gente vai escrever… Deve ser difícil, eu imagino. Como que a gente via dizer… O estudo foi inútil? Não teve repercussão nenhuma? O nome dos alunos não foi publicado em lugar nenhum? Então, é uma pressão, eu acho, que de marketing, uma pressão para ter valido o esforço… São várias variáveis que acabam influenciando.

Dr. Souto: Com certeza. Na realidade, em ciência, estudos negativos são tão importantes quando estudos positivos. Um estudo que mostra que algo não teve impacto, algo não fez diferença, é tão importante como um estudo que mostra que algo teve impacto ou fez diferença. No entanto, dentro da psicologia das pessoas, os estudos positivos, naqueles que a gente mostra que algo deu certo, que algo funcionou, parecem mais importantes. Nas próprias revistas científicas é mais fácil publicar um estudo positivo do que um estudo negativo. E por fim, essa publicidade da universidade, do departamento… Aumenta a chance de que sejam aprovados fundos para pesquisa quando eles foram solicitados na próxima rodada de solicitação de grants, de fundos e tal. Então, existem os chamados… O pessoal da economia conhece bem essa expressão: incentivos perversos. Existem os incentivos perversos para isso aí tudo. E a imprensa não foge do incentivo perverso, pelo contrário, ela abraça. Qual é o incentivo perverso da imprensa? É o clique. É chamar a atenção. A manchete “tomar ou não tomar café antes do exercício não faz nenhuma diferença não é uma manchete… É uma não-manchete. Agora, dizer assim… Cuidado. Se você toma café antes do exercício físico, você aumenta seu risco de infarto! Opa!

Rodrigo Polesso: O medo, medo, medo.

Dr. Souto: Eu tomo café. Eu tomo café com frequência suficiente daqui a pouco eu tomo antes do exercício e nem me dou conta, nem penso nisso. Eu vou ler isso. Ninguém infartou, não se estudou infarto nenhum. Não é um ensaio clínico randomizado com desfecho de infarto.

Rodrigo Polesso: E nem uma situação realista não é.

Dr. Souto: É, não se estudou café. Estudou cafeína purificada numa dose não realista, como você disse, tomada em pílula em dose única e não distribuída o que seria o dia inteiro… Que você vai tomando, metabolizando e urinando aquilo ali. Então, seria literalmente o equivalente a pegar… Vamos comparar… Uma pessoa que toma meia garrafa de vinho num intervalo de 4 horas versus eu pegar esta quantidade de álcool e injetar na veia.

Rodrigo Polesso: Ou tomar em shot de tequila em dois minutos.

Dr. Souto: Aí eu boto assim… Eu injeto na veia essa quantidade de álcool e aí eu vou colocar assim: Cuidado! Tomar vinho aumenta o seu risco de coma alcóolico. Depende da dose, depende da quantidade, depende da velocidade, da quantidade de líquido com o qual aquilo ali foi consumido.

Rodrigo Polesso: Depende de tudo, na verdade.

Dr. Souto: Depende de tudo. Tudo é uma questão de contexto.

Rodrigo Polesso: É isso aí.

Dr. Souto: Seria assim… Eu pegar 20 minutos de sol todos os dias versus eu… Então, 20 minutos de sol por 10 dias versus 200 minutos de sol por 1 dia. Eu estou falando da mesma quantidade de sol. Vocês acham que o resultado é o mesmo?

Rodrigo Polesso: Pois é.

Dr. Souto: Se acha, vai. Vai ser protetor e pega 200 minutos de sol numa tacada, meio dia. Agora, se pegar 20 minutos de sol todos os dias por 10 dias… Embora isso seja 200 minutos de sol, o efeito biológico será completamente diferente.

Rodrigo Polesso: E as conclusões também devem ser diferentes. E as manchetes também devem ser diferentes.

Dr. Souto: Exatamente.

Rodrigo Polesso: Então, Dr. Souto, agora é depois do almoço. Vamos compartilhar com a galera o que você está planejando comer na janta de hoje.

Dr. Souto: Pois é, é um negócio interessante, porque depois do almoço eu normalmente levo muitas horas para pensar na janta.

Rodrigo Polesso: Pois é. Sem esforço, isso que é o interessante.

Dr. Souto: Sem esforço. Eu estou cogitando só beliscar alguma coisinha hoje à noite. Eu gosto muito de pegar um queijinho, um pepeninho, um ovinho de codorna e é isso aí. Janta é um negócio que eu já cheguei à conclusão que não sei se vale a pena a sujeira que a gente faz e a louça que tem que lavar naquele horário.

Rodrigo Polesso: Certo.

Dr. Souto: Então, é melhor fazer uma refeição boa mesmo mais cedo. Cada um, cada um. Eu não tenho certeza do que que vai ser, mas estou achando que vai ser uma coisinha. Coisa pouca.

Rodrigo Polesso: Prático, nutritivo, gostoso também. Por que não? Eu vou fazer um bacon mesmo. Um bacon e um ovo para degustar rápido isso aí. É muito gostoso. A casa fica cheirando a bacon dois dias depois. Esse é um benefício.

Dr. Souto: E se você ficar cheirando o bacon não por dois minutos, mas dois dias, será que isso tem um impacto grande no seu consumo de vegetais?

Rodrigo Polesso: Aí vou querer comer só alface, com certeza. É dureza. É isso aí, pessoal. A gente fecha esse podcast de hoje aqui. Espero que tenha sido útil para você. Semana que vem a  gente se fala aqui novamente. Entra aí em TriboForte.com.br e veja o que está te esperando lá dentro. A gente se fala, Dr. Souto. Obrigado aí. Até a semana que vem.

Dr. Souto: Obrigado. Até a próxima.

2019-02-18T08:05:51+00:00fevereiro 19th, 2019|Uncategorized|0 Comments

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